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Foto: Iraisi Gehring

Irã Dudeque é historiador, arquiteto e autor do livro Espirais de Madeira, que conta a história das residências modernas de Curitiba. Nós entrevistamos Dudeque na biblioteca da PUC, onde ele também é professor.

Qual a relação que o brutalismo tem com o modernismo na arquitetura?

Existe uma tendência na arte, da busca do virtuosismo, em todos os períodos históricos. Com a arquitetura moderna aconteceu a mesma coisa. Num primeiro momento existe a tentativa de organizar uma linguagem. É a geração da década de 1920. Estavam inventando uma arquitetura, estavam simplificando arquitetura histórica, buscando a essência daquela arquitetura e ai chega-se em algumas fórmulas daquilo que seria a nova arquitetura, simplificada: pilotis, grandes armações de concreto, o uso de janelas. A medida em que o tempo vai passando, essa formula começa a se tornar mais complexa, começam a surgir elementos como, por exemplo, uma escada, que num primeiro momento serve pra levar uma pessoa de um nível até o outro, a medida em que o projeto modernista vai se desenvolvendo, as escadas vão se tornando mais complexas, então os arquitetos passam a elaborar projetos específicos pra essas escadas. O pilar, que no primeiro momento serve apenas para sustentação do edifício, passa a haver projetos específicos para esse pilar. O Brutalismo pode ser considerado um virtuosismo da arquitetura moderna, extremo da arquitetura moderna. O arquiteto modernista vai fazer um prédio, o edifício necessita de dezesseis pilares. Ele ergue esses dezesseis pilares e a caixa do edifício é resolvida a partir disso. O Brutalismo, mais virtuosístico, tenderá a pensar: mas por que dezesseis pilares? Por que não fazemos com oito, com quatro, com dois ou eventualmente por que não fazemos um edifício com pilar único que resolva todas as questões? Esse pilar vai subir e vai ser circulação e vai ser estrutura ao mesmo tempo e os elevadores passaram por dentro dele. É lógico que para o usuário que está colocado no interior do edifício, essa questão é secundária, mas para o arquiteto, com a linguagem cada vez mais elaborada, cada vez mais complexa, fica o desafio de buscar uma solução nova.

Foto: Iraisi Gehring

 

 

 

Marcelo Sutil é um dos pesquisadores mais atuantes na área de patrimônio histórico em Curitiba. Nós entrevistamos o Marcelo na Fundação Cultural de Curitiba, onde ele é coordenador de pesquisa e membro da comissão de Avaliação do Patrimônio, para falar da preservação das casas modernas na cidade.

Qual a importância de preservar as casas de arquitetura moderna em Curitiba?

Eu acho que todas as fases de uma cidade, de um meio urbano, são importantes. É claro que você não pode congelar uma cidade, se não Curitiba seria uma cidade luso brasileira, com as casinhas coloniais até hoje e se construiria desta maneira. Você não pode impedir que as coisas mudem, é até salutar. Mas eu acho importante que registros fundamentais, representativos de uma determinada época, eles permaneçam. Não só um prédio isolado, mas também uma paisagem inteira. É claro, pode ter um imóvel sozinho importante numa rua inteira, você vai cuidar só daquele imóvel. Mas as vezes você tem uma paisagem, uma rua inteira, uma praça, um setor de uma cidade que ele é referencial, ele é importante, ele conta muito a história das pessoas que estão ali, ele conta muito da história de quem fez, de quem trabalhou para construir aquilo, então essa memória é importante. Até para que se conheça futuramente o que se fez ontem. Isso eu to falando só de paisagem urbana e de arquitetura, eu não to nem entrando na questão de monumentos públicos e de painéis e de coisas que são importantes para preservação. Eu acho que é essa questão: vamos guardar um registro de um período para que se saiba o que foi, o que aconteceu, isso é importante, isso é fundamental. Então acho que é saber escolher, discernir o que é importante, o que não é, não é uma tarefa fácil, é sempre contraditório, eu posso eleger algo que eu considero importante, você pode achar que não… mas é nesses acertos e erros que se chega a um consenso  e que se vê o que é importante preservar para o nosso patrimônio.

Escada

Escada

Nas proximidades da miséria, Jean Dubuffet conseguiu um inédito comprador para suas pinturas: o arquiteto Le Corbusier. Dubuffet desconfiava da civilização. Ele queria explorar os monstros indomados do subconsciente. Em vez das fontes acadêmicas da tradição ocidental, ele tentava entender os procedimentos artísticos dos loucos, das
crianças. Em vez da tinta a óleo, preferia pigmentos misturados com vidro, tecidos, botões, cinza, areia, terra. Não lhe interessava uma arte apenas agradável. A aridez rudimentar do seu desenho destacava a lentidão e a dificuldade criativa, o que o afastava dos gestos vigorosos dos expressionistas abstratos.

As aquisições influenciariam parte significativa da arquitetura mundial nas décadas de 1950 e 1960. Le Corbusier também mostrava-se cada vez mais desconfiado da civilização industrial que ajudara a criar. Depois de dominar a arte da construção, ele indagava-se a respeito dos eternos medos e desesperos do ser humano. As pinturas de Dubuffet confirmavam a opção de recusar as facilidades projetuais. E as texturas informais do pintor levaram à opção de transformar as faces de concreto armado em grandes painéis artísticos, nos quais as marcas das fôrmas de concreto deixado à mostra eram incorporados ao resultado final. Surgia, assim, uma das características mais marcantes do brutalismo.

Irã Taborda Dudeque

O que mais me fascina ao fazer documentários é a chance de contar histórias que estão sempre próximas de nós. No caso do Traço Concreto, esta proximidade é evidente pela influência marcante da cidade. Mas também existe uma lembrança que carrego em especial de uma das casas filmadas. No meu tempo de escola, a casa projetada pelo arquiteto Lolo Cornelsen era parte do meu caminho. Aos 10 anos de idade, arquitetura moderna não era meu forte. Me interessava mais pela casa vizinha, com uma dupla de cachorros da raça São Bernardo e seus tonéis de cognaque no pescoço. Mas a casa do Lolo tinha lá seus atributos, principalmente a entrada em forma de “S”. Eram duas curvas, que na visão de uma criança viravam uma longa estrada sinuosa.

Em 1999 a notícia da demolição me fez lembrar o caminho da escola. E recentemente, ao começar as pesquisas para o filme, percebi que outras pessoas também guardavam a casa na lembrança de uma maneira especial. Elas podiam facilmente descrever detalhes da arquitetura, da fachada e do jardim principal. Por mais contraditório que pareça, a demolição fortaleceu a memória dos que conheceram a casa projetada pelo Lolo Cornelsen.

É com esta memória que o filme pretende recriar a imagem da casa. Atualmente o local é o endereço de um prédio residencial. Não há o que possa ser filmado, além de poucas fotos e recortes de jornal. Mas há muito para se explorar na memória dos que conheceram a casa. Vai ser um desafio interessante para o documentário Traço Concreto levar para a tela a memória dos que conheceram a casa do Lolo Cornelsen.

Danilo Pschera

Traço Concreto é um documentário que trabalha com a sutileza da observação de aspectos do cotidiano. Planejar um lugar para viver, passar a vida ali, ou deixar esse lar, são coisas fundamentais na vida das pessoas, todos passam por isso, mas poucas vezes damos a atenção devida a esse processo que mistura funcionalidade com o prazer estético.”

Eduardo Baggio